Entrevista com Pablo Carranza, da Mau Gosto Corp.

Pablo é o cabeça por trás da Mau Gosto Corp., editora independente que recentemente se uniu à Escória Comix para lançar “Podrão Aniquilação”.

Como se iniciou a sua relação com quadrinhos, e principalmente, com esse nicho alternativo no qual a Smegma está inserida?

Cara, leio quadrinhos desde que me entendo por gente. Quando eu era guri, lia A Turma da Mônica, Asterix e Obelix, A Turma do Arrepio, Pato Donald, Batman, Homem-Aranha, essas porra toda. A primeira palavra que consegui ler na vida foi o Chico Bento gritando “socorro”, então tem é tempo!

Mas foi só quando já tinha meus 20 anos que li a Chiclete com Banana, Marcatti, Allan Sieber, e Robert Crumb (principalmente aquele com Harvey Pekar) que minha cabeça explodiu e me fez querer fazer quadrinhos mais undergrounds. Underground no sentido de não depender (muito) do lado comercial. Nesse momento eu já sabia que ia me fuder. Não ia ganhar dinheiro nenhum com quadrinhos, mas pelo menos, daria pra desenhar histórias sem preocupação em vender pra pagar as contas. Eu gosto tanto de fazer quadrinhos, que até prefiro assim. Pago minhas contas fazendo freelances de ilustração e deixo meus quadrinhos autorais mais como diversão mesmo. Dito isso, lógico que eu espero que venda, e que eu ganhe dinheiro suficiente para bancar o próximo, e quem sabe, ainda ganhar um troco pra pagar a cerveja do final de semana, o que geralmente acontece.

Conte um pouco de como foi a criação da Mau Gosto, quando aconteceu e como tem sido nos últimos anos.

Na verdade, a MAU GOSTO só tem 1 ano. Eu fazia parte da editora Beleléu, e morava no Rio de Janeiro. Quando me mudei de volta para Aracaju (lugar onde eu nasci e cresci), saí da editora, e achei que era a hora de criar minha própria loja. É tudo mais simples, e o dinheiro das vendas vem direto pra mim. Então tem sido muito bom, acho que a tendência é ir ganhando cada vez mais público e clientes podres fiéis à trashice

Quadrinhos alternativos dependem muito de feiras/eventos pra ajudar nas vendas, como tem sido lançar quadrinhos no meio dessa pandemia?

Claro que a pandemia atrapalha e muito nas vendas, não só por conta da falta de feiras, mas também pelo fato de que tá todo mundo fudido financeiramente. Quando se compra online, não tem aquele apelo físico, de pegar o livro na mão, folhear e cheirar. Além disso, ainda tem o custo do frete. Por outro lado, nem todo mundo consegue viajar o tempo todo e ainda bancar uma mesa sem saber se vai sequer conseguir pagar os custos. Então, acho que o ponto positivo disso tudo é fortalecer um pouco essa cultura de comprar pela internet. Quanto mais pessoas tiverem esse hábito, melhor. Não estou falando que sou contra feiras, estou querendo a volta delas, mas vender online é muito importante também.

Recentemente você lançou “Podrão Aniquilação” pela Escória Comix, como é a sua relação com a editora? Como conheceu o trabalho do Lobo Ramirez?

Conheci ele justamente nas feiras. As feiras são importantes também pra conhecer outros trabalhos e encontrar amigos. Como eu falei, eu tinha recém criado a MAU GOSTO e já estava há um tempo desenhando o PODRÃO. Lobo, por coincidência, me chamou pra lançar algum gibizão pela Escória, e eu sabia que sozinho não teria dinheiro pra bancar uma impressão de um gibizão desses. Então tudo encaixou. Como eu queria eu mesmo lançar o gibi (pra ter um lucro maior nas vendas), rachamos os custos e o livro foi lançado em parceria pela MAUGOSTO / ESCÓRIA e tá dando certo.

Como foi o processo de criação de “Podrão Aniquilação”? Quanto tempo levou pra finalizar a história?

Acho que comecei a pensar na história lá pro final de 2018. Mas foi uma coisa completamente nova pra mim. A história mais longa que eu tinha desenhado na vida, acho que foi alguma de Rivalino e Chupacabra e tinha no máximo 16 páginas. Então teve um processo um pouco longo antes de eu começar a desenhar de fato. Tipo, pensar e amarrar uma história (mesmo que apenas o esqueleto dela) na minha cabeça. Pensar nos personagens, e pra completar desenvolver um traço. O traço que eu uso na SMEGMA não cabia no PODRÃO. Então tentei fazer algo mais “realista”, e como seria longo demais pra perder tempo fazendo a lápis antes, fiz sem muito planejamento, quase que direto na caneta, o que fica um pouco mais mal feito, mas que casa bem com o estilo da Escória.

Fora que eu achei que daria umas 150 páginas, mas acabou dando 288! Então demorou mais do que eu pensava mesmo. Além disso, prefiro desenhar me divertindo, e sem muito prazo. Acho que isso acaba passando para o papel. Mas agora que peguei a experiência com o PODRÃO, o próximo gibizão acho que faço mais rápido.

Em “Podrão Aniquilação” temos personagens que parecem muito o amontoado de estereótipos que todos conhecemos em algum momento da vida, obviamente com uma boa dose de tosqueira, tem algum personagem que seja uma recriação de alguém que você já conheceu?

Com certeza! Aqui em Aracaju (assim como várias cidades do BR) tem um Galego Lanches. O delegado Bareta também existe, ele tem um desses programas policiais na TV. O professor Edinho é obviamente baseado em Eddie Murphy no filme Professor Aloprado, e Ednaldo, baseado em Ednaldo Pereira, grande músico e influencer. O resto, salvo algum amigo meu que aparece como figurante em uma cena ou outra, veio sei lá de onde. Os personagens vão aparecendo de acordo com o que a história pede. Um personagem as vezes, é uma junção de personalidades de algumas pessoas que conheço ou de personagens que já existem.

E quais foram as suas principais inspirações para a concepção da história e personagens?

Sou viciado em filmes podres malfeitos e sem orçamento, principalmente da década de 80. A inspiração vem totalmente daí, assistir eles sempre me dá um monte de ideias e eu fico anotando enquanto assisto. Além disso, os próprios quadrinhos da Escória, como Úlcera Vortex (de Victor Bello), Asteroides (do próprio Lobo Ramirez), e os quadrinhos de Benjamin Marra me influenciaram também. O Brasil por si só parece um filme B mal feito, então acaba sempre me dando ideias. Por conta dessa pegada de filme trash que o gibi tem, eu desenhei ele num formato igual ao de uma fita VHS. Mudei a estrutura de quadros, adaptando pra esse formato mais vertical, e pra falar a verdade, achei que encaixou até melhor no meu estilo. Gostei muito do resultado.

Você pode acompanhar e apoiar o trabalho do Pablo Carranza nos links abaixo!

Lojinha da Mau Gosto Corp.
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Paulo Cavagnari

Leitor de gibizinho e criador do Tosqueira. Além de falar de gibi nacional por aqui, eu falo de gibi de hominho no Vigilante Atômico, podcast dedicado aos super heróis.

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