Conheça Pinacoderal – Rudimentos da Linguagem, de Diego Gerlach

Não são raras as vezes que nos deparamos com materiais de quadrinistas que acabam por cair no limbo entre uma publicação e outra ou que simplesmente não encontram a luz do dia pelo simples fato de que nenhuma editora demonstre interesse em publicar aquele material. Esse não foi o caso de Pinacoderal, de Diego Gerlach.

O material em questão é um apanhado de trabalhos escritos e desenhados por Diego Gerlach ao longo dos longínquos anos de 2009 até 2016, foram seis anos entre zines, publicações em compilações nacionais e internacionais e material publicado exclusivamente na internet e que graças a insistência do Carlos Panhoca, da Pé-de-Cabra, ganhou uma edição caprichadíssima e a altura da qualidade elevada desse material. Mas do que se trata afinal? O que é Pinacoderal?

Aqui eu acho que as coisas ficam mais nebulosas, mas no bom sentido, segundo o próprio Diego vai relatar no posfácio, Pinacoderal foi uma mutação que ocorreu enquanto a coisa toda se desenrolava. Não havia um planejamento prévio, e enquanto leitores, sentimos isso desde as primeiras publicações. É notável que existe sim um aprendizado ao longo desses 7 anos revisitando os mesmos personagens e definindo que todos orbitam nesse mesmo plano, nessa mesma cidade chamada de Pinacoderal, originalmente, da Parahyba.

A trajetória do próprio Diego e suas vivências morando em João Pessoa na Paraíba e posteriormente voltando ao Rio Grande do Sul, conferem uma gama de referências que todo leitor que já viveu a noite da sua própria cidade pode captar. Dentro dessa cidade cheia de contrastes nos deparamos com um elenco de personalidades que são mais do que esquisitões com um visual interessante, são um punhado de referências que a gente coleta nas ruas, naquele maluco que senta em frente ao boteco e te pede um cigarro, te ganha no papo e sai com uns trocados no bolso e um copo de cerveja, é nesse plano, no underground que você vai encontrar figuras como o Zuêro, o Boy Rochedo e todos os demais.

E quem vive em Pinacoderal é o que?

É selvagem, maluco e nóia. Cada figura que Diego escreve e desenha em Pinacoderal, tem uma aura própria, que além do visual interessante, entrega algo a mais, que vai se desenvolvendo ao longo do tempo, seja no traço que fica mais agressivo ou dinâmico, seja na própria trama que vai se desenrolar, ou não.

Então quem é quem nessa cidade, conforme o próprio livro descreve:

Boy Rochedo: Vinculado aos incógnitos “Agentes Independentes”, o Boy se auto-intitula “O espírito de tudo que é massa”, o que não deixa de ser um mistério , pois mesmo seus melhores amigos meio que o consideram um cuzão.

Caranguêjera: Punk das antigas, alega ter presenciado o apocalipse que originou Pinacoderal. Um ser imortal e doidaço ou apenas um mentiroso contumaz? Possui uma relação mais do que conturbada com uma aranha caranguejeira.

Caranguejeira: Aranha ou mulher – ninguém sabe.

Dr. Jeová: Um ambicioso palestrante que emprega o hermético estilo retórico conhecido como “Retórica Anti-Matéria”, que ninguém parece conseguir explicar – embora ganhe cada vez mais adeptos. Seus planos para ganhar influência em Pinacoderal ainda não são claros, embora seu intento de passar à história enquanto a deforma e a destrói seja evidente.

Lâmina Imperial: Já chamado de “o mais belo animal de Pinacoderal” e egresso de uma malfadada carreira como comediante stand-up (e depois como postulante a um cargo político), o licantropo é uma ex-celebridade dotada de devastadores poderes psíquicos ainda não inteiramente compreendidos. Escravo de seus instintos, possui um lado obscuro que ameaça engolfá-lo.

Mestre Canis: Possivelmente só mais uma lenda urbana em Pinacoderal… embora muitos aleguem já ter visto a nefasta entidade em pesadelos e outras situações adversas. Teria surgido da fusão ectoplásmica entre um dissoluto ilusionista/artista performático e seu cão por quem nutria “afeto não-natural”.

Verloq: Pouco se sabe sobre o misterioso pichador.

Vingax: Um dos membros mais proeminentes das milícias semi-autônomas que patrulham as ruas caóticas de Pinacoderal, Vingax é um ex-músico de vanguarda transformado em vigilante, conhecido pela visceralidade com que combate o chamado “elemento criminal”.

Zuêro: Um trote taxidérmico que de algum modo, ganhou vida. Diz a lenda que chorume corre em suas veias ao invés de sangue. Zuêro é um dos lordes da sarjeta em Pinacoderal. Seu maior dom é a capacidade de se insinuar em qualquer território feito uma sombra desengonçada e assustadora.

Sabendo quem são esses elementos (que fique claro, no livro em questão já sabemos que eles habitam o mesmo local, mas na época em que essas tiras foram produzidas ou publicadas esse não era um entendimento geral) já podemos passear por Pinacoderal com uma certa familiaridade, mas ainda com desconforto, é fato que não é pra qualquer um, dá pra sentir que essas ruas possuem aquela aura negativa que percebemos ao passear por um beco estreito de um bairro ruim, mas tudo aqui colabora pra que essa seja a sensação. E ainda bem que é assim, porque as figuras descritas acima funcionam nesse ambiente.

Percebe-se que lá em 2009, a cidade ainda não era o palco, o foco estava muito mais nos personagens que iam surgindo e conquistando suas próprias histórias. A cidade passa a ter seu protagonismo aos poucos, seja num plano mais aberto que mostra um beco, seja numa vista panorâmica dos prédios pichados que vão surgindo ao longo desses sete anos.

É inegável que o talento de Diego Gerlach não se restringe ao desenho, ele possui uma narrativa única e que aqui, vai além do humor, chega a conquistar um certo tom místico, principalmente quando se trata do Boy Rochedo, acompanhamos não só o crescimento desse universo, mas uma evolução das técnicas empregadas nessa narrativa. De qualquer forma, é um quadrinho indispensável para aqueles que buscam sair da mesmice, que queiram se conectar (mesmo que a distância nesse período de pandemia) com aquelas figuras exóticas que toda cidade possui nos seus botecos e becos a noite, aquelas que são tão caricatas que nem se sabe ao certo se são reais.

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Paulo Cavagnari

Leitor de gibizinho e criador do Tosqueira. Além de falar de gibi nacional por aqui, eu falo de gibi de hominho no Vigilante Atômico, podcast dedicado aos super heróis.

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